sucesso.

Estou a escorregar um bocadinho nas pedras, mas os sapatos são perfeitos. Preto mate com o salto em verniz brilhante. Não sei quantos centímetros têm, mas quando chegar ao trabalho vou medir.

   — Aquela pedra estava mais inclinada do que parecia, digo para mim mesma enquanto faço dançar os braços para me equilibrar, como se fosse um avião. Só preciso de me concentrar. Colocar o pé mais direito e fazer força perto dos dedos, mas não demasiada. Com os ténis seria mais fácil andar, mas o Afonso tem razão — estes ficam-me muito melhor e tornam as minhas pernas mais esguias.

— Bom dia, menina.

— Ah! Bom dia, Sr. Joaquim.

Quase nem o vi de tão concentrada que estava. Sempre gostei dele. Quase todas as semanas venho aqui comprar fruta. O Sr. Joaquim está sempre bem disposto e costuma colocar uma peça extra no meu saco — “Para a menina”, costuma dizer.

— Até amanhã! digo, antes que ele tenha a triste ideia de me obrigar a parar. Costumamos dar dois dedos de conversa à porta da frutaria, mas hoje, graças a estes sapatos novos, já estou atrasada.

Tenho sede. Puxo o ombro para trás para tirar a mochila, mas ela não está lá e quase me atiro a mim para o chão. A mala também é nova. Gosto muito dela. Toda preta com o fecho em dourado. É mesmo bonita, mas, claro, não é mala para levar garrafas de água. Se calhar, devia perder esta mania de andar a pé para todo o lado e começar a trazer o carro.  Também nunca o uso e ainda acaba por se estragar mais por estar parado. Vou precisar de garagem no escritório, mas isso é fácil. A empresa tem lugares reservados e descontam logo a mensalidade. Sem complicações. É um bocado cara, e depois também há a gasolina, mas, pronto, “cuidar de nós exige esforço e dedicação”. O Afonso repete este mantra todos os dias, enquanto se penteia no meu espelho da casa de banho.

Sempre que está satisfeito comigo, leva-me a jantar fora. Da última vez que viemos aqui jantar, ofereceu-me um alisador de cabelo, daqueles todos profissionais. Sempre usei os meus caracóis naturais, mas ele disse-me que eu iria parecer mais nova com o cabelo liso. A verdade é que aqueles caracóis estavam indomáveis e com o cabelo liso é tudo tão mais fácil. E talvez pareça mesmo mais nova.

Ele acaba de pagar a refeição e eu levanto-me. Toca-me no rosto. Só com as costas dos dedos, de baixo para cima, tira-me o cabelo da cara. Sorri. Olha-me nos olhos e ajeita-me o casaco. Nunca o uso tão direito quanto deveria, acho que são os meus ombros que o entortam, o direito está sempre mais alto. Sempre adorei o seu sorriso.

Depois do jantar, vem a cama. Olha para mim de alto a baixo antes de me despir. Consigo ver que aprova. Sorri-me. Irrita-se um bocado com o fecho da saia. Foi ele que ma ofereceu, “Para variares das calças de ganga”, disse. É daqueles fechos que ficam invisíveis e que custam um bocadinho a puxar. A verdade é que ele já me tinha dito que a saia está demasiado justa. Ele acha que basta perder um ou dois quilos para não ficar tão apertada. Mas ele consegue abrir o fecho e o resto já sai bem.

— Deixa os sapatos, diz-me. Eu deixo. O salto prende-se no lençol.

O ar condicionado está tão quente que me custa a respirar. Olho para o meu prédio lá fora e sinto vontade de me teletransportar de dentro do carro diretamente para a minha cama, como nos filmes. Tenho sede, mas na minha mala continuam a não caber garrafas. No carro dele nunca há nada, nem água, nem comida.

— Estás a ouvir-me?, pergunta. Já não és a mesma, acho que sabes disso. É por isso que não me respondes? Estás tão diferente. Já não sou feliz e tenho de pensar em mim. Estás a ouvir-me?

Eu oiço, ao longe. Tenho uma bolha no pé. Estou a tentar descalçar o sapato — ah, cheguei a medir, são onze centímetros de salto — só um bocadinho, só para deixar de tocar na bolha. Consegui. Sucesso.